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O Evangelho Segundo o Espiritismo à luz da Bíblia

Kardec afirmou que "O Evangelho Segundo o Espiritismo" era a última revelação de Deus à humanidade e a mais actual e correcta. Milhões têm sido enredados por essa doutrina que vem sendo modificada...

O Evangelho Segundo o Espiritismo à luz da Bíblia

Kardec afirmou que "O Evangelho Segundo o Espiritismo" era a última revelação de Deus à humanidade e a mais actual e correcta. Milhões têm sido enredados por essa doutrina que vem sendo modificada...

23
Nov16

Ciência nova? Chave?

Maria Helena

«5. O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo alude em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que Ele disse permaneceu ininteligível ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil.»

 

O espiritismo nunca foi, não é e nunca será Ciência! É uma seita/religião criada por Allan Kardec.

Jesus Cristo nunca deixou nada espúrio e sem interpretação. Tudo o que Ele queria revelar está na Escritura _ nos evangelhos, nas epístolas e no Apocalipse. Tudo o que passar disso, é outro evangelho.

 

Actualmente, o espiritismo é uma das religiões que mais cresce no Brasil. Segundo as sondagens [IBGE] cerca de 2% da população diz-se espírita e a maior fatia concentra-se nas regiões Sul e Sudeste. Apesar de se notar um crescimento, se compararmos a percentagem de espíritas com a de católicos e protestantes, ela ainda é muito baixa. Também segundo as últimas sondagens, o espiritismo parece ter o maior percentual de adeptos alfabetizados o que também não deve impressionar-nos pois, ao pretender afirmar-se como ciência e não como uma religião apenas, muitos PHD's enveredem por ela e acham-se mais evoluídos do que os demais. Incapacitados de raciocinar fora da doutrina kardecista pelos espíritos [demónios] que os possuem nas sessões, o adeptos do espiritismo alegam que a mediunidade e a comunicação com os mortos são pressupostos científicos e não conseguem perceber a impossibilidade de tal afirmação.

 

Mas, qual seria o conceito de ciência que se poderia adequar a essa visão?

 

Deixo-vos o texto escrito por Bertone Sousa:

"O “x” da questão está nas características que [o espiritismo] assumiu desde sua fundação.  

Desde Galileu e Descartes, a modernidade fundou o pensamento científico como método por excelência de investigação da natureza. Até ao século 19 a maior parte dos cientistas não via oposição entre essa investigação e a crença em entidades sobrenaturais que regiam o mundo. O espiritismo moderno fundado por Allan Kardec (cujo nome verdadeiro era Hippolyte Léon Denizard Rivail) nasceu no contexto em que a sociedade europeia vivia a euforia do cientificismo. Enquanto os positivistas anunciavam a criação de uma “religião da humanidade” pautada nos ideais da racionalidade científica, os dogmas da Igreja Católica perdiam terreno para o anticlericalismo dos intelectuais e movimentos revolucionários e de sociedades secretas como a maçonaria e a teosofia.

 

Respondendo aos desafios do seu tempo, Allan Kardec (que adoptou esse nome por acreditar ser a reencarnação de um antigo sacerdote druida) não apenas funda uma religião como também produz toda uma concepção teórica em que pretendia expor a sua doutrina com base no método experimental, sugerindo que a conversação com espíritos é não apenas algo natural, mas também objectivo, racional, passível de observação, de evidências empíricas, agregando todos os elementos de uma doutrina científica. A crença na comunicação com os mortos e na vida após a morte não é algo recente na história humana e os registos mais antigos dão conta de que existem há pelo menos 30 mil anos. Através de Platão, a filosofia antiga também criara uma concepção de mundo e de homem baseada na dicotomia espírito e matéria. No diálogo Fédon, Platão analisa o corpo como prisão da alma, sendo esta anterior à existência corpórea e sobrevivendo a ela.

O que Kardec fez no século 19 foi adaptar essa dicotomia e a doutrina da reencarnação ao modelo cientificista da sua época. Seguindo a tradição hindu, Kardec acreditava que a reencarnação proporcionaria ao espírito passar de uma condição inferior à mais elevada, sendo cada ciclo uma nova oportunidade de aperfeiçoamento e aprendizagem. Incorporando princípios da biologia evolucionista e depois do darwinismo ele postulava que o espírito jamais reencarnaria no corpo de um animal, jamais voltaria a um estágio inferior, sendo a sua marcha sempre progressiva, afirmou em “O livro dos espíritos”. Mas ao mesmo tempo em que tenta incorporar as doutrinas científicas do seu tempo para dar legitimidade à sua obra, Kardec também coloca os problemas sociais como sofrimento, guerras, injustiças sociais e pobreza como causas unicamente espirituais. Dessa forma, o espiritismo legitima os desajustes sociais, naturaliza-os e retira dos agentes históricos as responsabilidades por sua existência.

 

Devido ao fascínio que as elites brasileiras tinham pela França, não tardou para que o espiritismo adentrasse aqui. A transposição do kardecismo para o Brasil o fez sofrer algumas modificações e a principal delas talvez tenha sido a predominância do aspecto religioso sobre o filosófico. O espiritismo nasceu do descontentamento com a religião hierarquizada, com a hegemonia do clero. Mantendo-se distante de querelas teológicas, valorizava a liberdade individual e cultivava a tolerância a outros credos, além de não sujeitar os seus adeptos a rígidas normas de conduta, posturas que mantém até hoje. Não é por acaso muitos intelectuais se filiam a essa crença. No entanto, as reinterpretações da doutrina não impedem que os espíritas brasileiros continuem a considerá-la “científica”, incorporando, inclusive, tendências contemporâneas como a mecânica quântica. Essa obsessão cientificista está tão fortemente enraizada na doutrina espírita que dificilmente os seus adeptos podem perceber os equívocos nela presentes.

 

Mesmo a mediunidade não pode ser considerada um fenómeno científico como pretendem. Waldo Vieira, amigo e parceiro de Chico Xavier, já denunciou os casos de fraude que envolviam suas actividades de psicografias. Num vídeo disponível no Youtube ele conta que as pessoas mandam cartas com informações e detalhes para o médium colocar nas mensagens psicografadas e conclui que tudo é “jogo de carta marcada”. No vídeo ele diz:

 

«Você sabe que essas mensagens psicografadas da pessoa que morreu assim, eles mandam uma carta com os detalhes pra pessoa colocar na mensagem psicografada. Tem médium que tá recebendo essas mensagens até hoje. Eu nunca recebi uma mensagem assim. Agora o pior disso é aquilo que eu falo pra vocês, a natureza humana não falha. Quando eu deixei o movimento espírita, mandaram umas cartas dessas pra mim pra eu receber a mensagem pra pessoa. Eu queimei as cartas, só pra não envolver ninguém. Então eles mandavam: o apelido dele é esse, a tia que ele gosta é essa, a madrinha dele é a fulana, ela mora assim e assim; o avô que ele gostava muito morreu no ano tal. Agora, eles mandavam essas cartas com tudo já mastigado pra você colocar. Tudo é carta marcada, jogo de carta marcada. […] Todo mundo que vai estudar isso acaba vendo porque vai encontrar isso aí. […] Tem médium até hoje que ainda tá recebendo essas coisas e fazendo aí um auê, né. Isso dá ibope, sabe, o processo é o seguinte: faz média com muita gente, etc. Então, a mãe faz média, o médium faz média, o centro espírita faz média, é um monte de coisas.»

 

Essa fala de Waldo pode revelar apenas a ponta do iceberg que é o universo de fraudes espíritas. Ele faz questão de enfatizar que não participava disso, ou como se diz no jargão popular, tira o dele da reta, mas deixa escapar que recebia as cartas e as lia porque detalha seu conteúdo. Outro aspecto importante dessa fala é que ela explicita que a predisposição das pessoas para acreditarem no médium as leva a participar de uma espécie de pacto fraudulento fornecendo detalhes da vida do ente querido falecido. A fragilidade emocional certamente as deixa vulneráveis à sugestão e ao embuste e nesse sentido é muito sintomática sua frase de que “a natureza humana não falha”.

 

Ele também diz no início do vídeo que isso não abarca todos os casos de psicografia, mas apenas uma parte. A frase “tudo é jogo de carta marcada” não é surpresa pra quem tem uma postura cética em relação à prática da mediunidade, mas o fiel espírita, cético para com outras religiões mas não em relação à sua própria, reluta para não aceitar isso como uma prática corriqueira ou recusa-se a questionar as bases da sua crença. A ausência de um controle metódico do que se faz no ambiente espírita ou nos casos de psicografia e o próprio empenho dos fiéis para escamotear essas questões torna difícil para qualquer pessoa honesta compreender o que de facto ocorre abaixo da superfície.

 

No livro “O mundo assombrado pelos demónios”, Carl Sagan fez a seguinte observação:

Como é, pergunto a mim mesmo, que os canalizadores nunca nos dão informações verificáveis que nos são inacessíveis por outros meios? Por que Alexandre, o Grande, nunca nos informa sobre a localização exacta do seu túmulo, Fermat sobre o seu último teoremaa, James Wilkes Booth sobre a conspiração do assassinato de Lincoln, Herman Goering sobre o incêndio do Reichstag? Por que Sófocles, Demócrito e Aristarco não ditam as suas obras perdidas? Não querem que as gerações futuras conheçam as suas obras-primas?

 

Recentemente, pesquisadores da USP divulgaram um estudo realizado em conjunto com outros cientistas de uma universidade na Filadélfia em que investigavam o que acontece com um médium quando entra em estado de transe. Descobriram que nos momentos em que realizam psicografia, por exemplo, o hipocampo esquerdo e o lóbulo frontal (responsável pelo raciocínio, planejamento e linguagem) apresentavam baixa atividade. Isso era perceptível nos mais velhos, que exercem a atividade há mais tempo; nos mais jovens essas áreas do cérebro continuavam a manter atividades normais, o que segundo os pesquisadores, indica que essas pessoas faziam maior esforço para realizá-la.

 

Mesmo as EQM’s (ou experiências de quase morte), narradas por pessoas que afirmam a sensação de terem saído do corpo após um estado de coma ou inconsciência, não são actividades paranormais consideradas definitivas para a ciência. Para alguns cientistas, essas experiências são resultado da liberação de endorfinas pelo cérebro como uma preparação para a morte. A vontade de acreditar deixa as pessoas vulneráveis à sugestão, o que é compreensível, pois afinal, para muitos seria insuportável a vida sem a noção de continuidade. Como numa brincadeira de faz de conta usamos as crenças religiosas para tentar enganar a morte, mesmo que pra isso as pessoas façam vista grossa ou ignorem o charlatanismo e a duplicidade dos que fazem canalizações, comunicações com os mortos, o que for. De qualquer forma, a ciência nada tem a ver com essas crenças.

 

É facto que a ciência não tem todas as respostas paras as questões existenciais, mas tentar transformar dogmas religiosos em doutrinas científicas é uma atitude espúria e desnecessária e os espíritas não são os únicos religiosos a fazerem isso. Ideias como reencarnação ou imortalidade da alma estão além de nossa capacidade de verificação empírica e são exclusivamente objecto de fé pessoal, assim como as noções de Deus, ressurreição, vida extraterrestre, etc.

 

Isso não quer dizer que a ciência seja refratária à religião, pois nasceu dela e dialoga com ela. Mas não é igual a ela: a ciência investiga, experimenta, testa, mede, contesta, postula – essa é a postura científica e o espiritismo está fundamentado antes em dogmas incontestáveis do que nessa postura. Por exemplo: acredita-se que seus textos fundacionais (obras de Allan Kardec) sejam revelados e está pautada em crença na salvação (daí a valorização da caridade), numa divindade, em hierofanias (manifestações do sagrado), além de prescrições e interdições éticas e morais.Ora, sabemos que a ciência não trabalha com verdades reveladas nem com perspectivas salvacionistas ou pressupostos espirituais de natureza religiosa. A ciência moderna reconhece apenas a existência de matéria e energia no universo e não corrobora qualquer afirmação de continuidade da vida após a morte ou existência de seres imateriais.

 

Pode-se mesmo falar em “fé científica”, mas o que designamos por isso é bem diferente de uma fé religiosa. Como dizia Carl Sagan, afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. A pretensão dos espíritas de tratar a sua religião como ciência não faz sentido para um credo que possui dogmas, livros revelados e se apresenta a partir de um arcabouço de crenças religiosas, pois nada disso diz respeito ao conhecimento científico. A ciência pode nos precaver de charlatanismos, da sugestão e da desonestidade de líderes e tendências religiosas, mas uma vez que também não pode nos prover de um sentido último para a existência, pelo menos no sentido de uma continuidade da vida após a morte, as religiões podem preencher essa lacuna para aqueles que se contentam com suas explicações e significados; contudo, sua iniciativa de usurpar um lugar junto à ciência é espúria. Religião e ciência não falam sobre as mesmas coisas, não usam a mesma linguagem para explicar o mundo e não são complementares.

 

Texto editado em 02/11/2015

https://bertonesousa.wordpress.com/2013/03/09/espiritismo-religiao-sim-ciencia-nao

 

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